ENTRE A URGÊNCIA SOCIAL E O RISCO FISCAL: O DILEMA DO GOVERNO.

O Brasil vive um paradoxo inquietante: enquanto o governo acumula conquistas sociais significativas — da redução da fome à ampliação do acesso à educação — esses avanços são constantemente ofuscados pelos riscos fiscais que os acompanham. É uma leitura necessária, embora impiedosa, das medidas tomadas em resposta à profunda carência e às injustiças históricas que marcam a maioria da população brasileira. O desafio está em reconhecer o mérito desses esforços sem parecer que se concede ao governo um cheque em branco. O que incomoda é que, muitas vezes, os efeitos adversos da cura são mais discutidos do que a própria doença que se tenta tratar. E nesse embate entre idealismo e pragmatismo, a política pública se vê obrigada a caminhar na corda bamba entre urgência social e responsabilidade fiscal.

Nos últimos anos, o Brasil enfrentou desafios fiscais persistentes, com déficits primários recorrentes e uma dívida pública que ultrapassa 75% do PIB. A nova âncora fiscal, embora mais flexível que o teto de gastos anterior, exige que o governo mantenha um resultado primário positivo e controle o crescimento das despesas. Isso impõe limites à expansão dos programas sociais, a menos que haja aumento significativo na arrecadação.

A crítica, portanto, não deve se voltar contra os objetivos sociais do governo, mas contra a forma como esses objetivos são financiados. A ausência de reformas estruturais, como a administrativa, e a resistência em rever privilégios e distorções do gasto público, revelam uma preferência por soluções de curto prazo que empurram o problema adiante. É preciso coragem política para enfrentar interesses arraigados e construir uma base fiscal sólida que permita ao país crescer com justiça e estabilidade.

Nesse contexto, o governo aposta que o crescimento econômico será o motor capaz de financiar os investimentos sociais sem comprometer a estabilidade fiscal. Em tese, uma economia em expansão gera mais arrecadação via impostos, reduz a necessidade de transferências assistenciais e melhora indicadores como emprego e renda. Mas para que essa equação feche, o crescimento precisa ser robusto e sustentado. Estimativas indicam que seria necessário manter um ritmo acima de 3% ao ano por vários anos consecutivos para acomodar os gastos sociais sem ampliar o déficit. Isso exigiria reformas, aumento da produtividade e um ambiente de negócios mais previsível — desafios que vão muito além da vontade política. Sem esse crescimento, o risco é que o social continue sendo financiado por déficits, o que transforma uma política de inclusão em uma aposta de alto custo.

Valorizar os esforços sociais sem ignorar os riscos fiscais é um exercício de maturidade democrática. Não se trata de escolher entre o social e o fiscal, mas de reconhecer que um depende do outro. A verdadeira responsabilidade está em construir pontes entre esses dois mundos — e não em cavar trincheiras.  O possível arrefecimento do antagonismo entre posições ideológicas extremadas –, com o final do julgamento da tentativa de golpe de estado -, pode trazer mais serenidade e objetividade no trato dessa questão tão importante para todos nós.

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